*Stefan Massinger

 

Em 1644, Maurício de Nassau, aquele, que escrevi nos episódios anteriores, modernizou Recife e tornou o capital Pernambucana centro da atenção na época, retornou à Europa, deixando a administração de Pernambuco enfraquecida para enfrentar os obstáculos advindos da guerra com os portugueses.

Diminuída a febre da busca pelo ouro, a colônia voltou a uma certa estabilidade anos depois, e logo começou a prosperar, também impulsionada pela mineração, claro. – e, os estabelecimentos chiques nas regiões dos garimpos tiveram que servir aquela bebida bem vista e chique europeia, já nacional – vinho!

No século XVIII, não demorou para que pequenas indústrias começassem a se estabelecer no Brasil, transformando a matéria-prima colhida aqui — cana-de-açúcar, algodão, minerais, e outros produtos da grande agricultura brasileira — em produtos para serem consumidos internamente e exportados, gerando receita bem-vista para a colônia.

Só que nem sempre o que era bom para o Brasil também trazia lucro para Portugal. Como Brasil é muito maior e, por isso, tinha muito mais potencial produtivo do que a pátria colonizadora, os bens manufaturados logo começaram a criar uma concorrência nem um pouco bem-vinda com os produtos portugueses. O velho conflito entre nação mãe e colônia.

Como consequência, em 1785, foi preciso que Dona Maria I baixasse um alvará proibindo de vez a atividade manufatureira nas colônias de diversos produtos brasileiros. O fim deste decreto foi claro –  Que Portugal reconquistasse seu domínio econômico. Assim, embora pudesse continuar cultivando as uvas, o Brasil não podia mais transformá-las em vinho. – Será que Brasil voltaria aos tempos, em que recebeu vinho azedo português, em barris inadequados trazidos pelo oceano aberto em ambiente úmido?

Mais um agravante já vinha prejudicando as vinícolas nacionais desde três décadas antes: em 1756, na intenção de compensar eventuais prejuízos para a coroa portuguesa e os produtores lusitanos na exportação de vinho para a Inglaterra, a Coroa também decidiu que uma cota do vinho consumido no Brasil deveria ser o Porto lusitano.

A situação só viria a melhorar para o nosso lado a partir de 1808, com a vinda da Corte real para as nossas terras, fugindo de Napoleão e suas conquistas megalomaníacas na Europa.

Com a vinda do corte, veio também o estilo da vida nobre europeu, mas totalmente abrasileirada. Trazendo consigo um batalhão de profissionais e mão de obra — além de muita demanda pela bebida, sem dúvida —, a chegada de Dom João VI impulsionou a produção vinífera por aqui. – não apenas em quantidade, mas também em termos de qualidade. Trazendo sábios enólogos para Brasil com a busca de novas existências sustentáveis e a visão de produzir algo bom “originalmente brasileiro”.

Com o centro administrativo do reino português transferido para o Rio de Janeiro, o Brasil também pôde reabrir seus portos e voltar a produzir bens manufaturados a todo vapor, assim restabelecendo as indústrias e vinícolas brasileiras.

 

* Stefan Massinger nasceu na Áustria, sul de Viena, numa região de vinhos. Vive em Caraguatatuba, sendo embaixador do grupo Wine, o maior e-commerce de vinhos da América Latina, através da sua empresa Marevino. Também administra um curso on-line, tem um podcast e faz lives educativas mensais. Atua também como consultor independente de negócios.

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