*Stefan Massinger

 

Então aprendemos no post anterior – está lá a “mistura” para implantar uma cultura vinífera em terras brasilis: O consumo da bebida sendo algo nobre, legitimado pela coroa e igreja, o aspecto prático – de higienizar (lembra em dias de hoje o álcool em gel…) e o aspecto sociocultural – de trazer felicidades para os marinheiros…Uma mistura de ter tudo na mão para dar certo o consumo do “dia-a-dia” do vinho – seja por algo especial, por necessidade sanitária ou por algo legitimado pela religião e a coroa.

Vamos dar uma olhada detalhada nos fatos diários do consumo do vinho da época, ainda sendo algo importado! Reza a lenda, e não é difícil de acreditar, que o vinho que chegou depois uma viagem no mar aberto em barris, que eram abertos já durante a viagem para “degustar” uma ou outra taça ao bordo já não estava nas melhores condições… Vamos combinar meses no ambiente úmido dos barcos, sujeito aos choques das ondas e tempestades, em condições de armazenamento nada adequadas com certeza não era a melhor forma de trazer esta bebida maravilhosa de Portugal para Brasil.

Como gesto de paz e confraria os portugueses recém-chegados ofereceram vinho para os índios.  Mas depois que os nativos experimentaram ele foi cuspido! Não sabemos, se eles já conseguiram entender, que o vinho chegou em péssimas condições no Brasil ou se simplesmente não gostaram da bebida fermentada da uva, uma fruta até então desconhecida no Brasil.

Em contrapartida os índios ofereceram aos portugueses seu cauim — bebida fermentada produzida, geralmente, com mandioca —, mostrando uma habilidade na preparação de aguardentes que viria a ser crucial para o desenvolvimento das vinícolas brasileiras alguns anos mais tarde.

Depois da descoberta das nossas terras pelos portugueses, que incluso na importação da cultura portuguesa chegou a cultura de consumo do vinho, foi só em 1532 que a história do vinho nacional realmente começou a dar seus primeiros passos. Digamos –deixou de ser uma bebida importada, vinagrada, chacoalhada no oceano aberto em ambiente húmido e tornou-se devagarinho em uma bebida nacional. Bebida nacional, leia-se bebida, que foi produzido aqui, não sendo confundido como bebida tradicional.  Tendo chegado ao Brasil no ano anterior, Brás Cubas era um fidalgo português nascido em Porto e que participou da expedição de Martim Afonso de Sousa pelo que se tornou, em 1536, a Capitania de São Vicente. E claro, descendente de uma casa nobre de Portugal, era acostumado de ter sua (s) taça (s) de vinhos diária (s) com as refeições bem servidas. Então, até escrevendo isso com sentimento e experiência pessoal, o que acha que faz falta no exterior…?

Exatamente – uma bela taça de tinto ou branco para acompanhar uma carne assada ou um peixe recém pescado e bem feito – ou até como um drink depois um dia de trabalho, para apreciar a companhia de alguém querido e idealmente um pôr de sol tropical …

Para refrescar a memória, vale lembrar que, depois do descobrimento, o Brasil colônia foi dividido pela Coroa portuguesa em 14 capitanias hereditárias, cuja administração passava de pai para filho e foi concedida a famílias nobres, vindas do Velho Continente. Só duas dessas capitanias prosperaram: Pernambuco e São Vicente.

Voltamos a pensar em nosso pioneiro vinicultor, Brás Cubas. Ele então funda a vila de Santos e logo manda plantar, nas encostas da Serra do Mar, mudas de parreiras trazidas de Portugal. Já pensou se a serra do mar do litoral sul paulista se tornasse em algo, que hoje conhecemos de Serra Gaúcha e cidades como Bento Gonçalves?

 

* Stefan Massinger nasceu na Áustria, sul de Viena, numa região de vinhos. Vive em Caraguatatuba, sendo embaixador do grupo Wine, o maior e-commerce de vinhos da América Latina, através da sua empresa Marevino. Também administra um curso on-line, tem um podcast e faz lives mensais. Atua também como consultor independente de negócios.

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