*Stefan Massinger

 

O problema de introduzir a vinicultura no litoral sul paulista é simplesmente o clima. A humidade, a falta de invernos europeus, muita chuva – simples a clima tropical não favoreceu em nada a plantação, e a tentativa resultou em fracasso total. Por sorte, o fidalgo português Brás Cubas continuou tentando e conseguiu, alguns anos mais tarde, obter as primeiras vinhas do nosso país, mais para dentro do continente, em Tatuapé…. já pensou se ainda tivéssemos plantações de vinhos dentro da capital e metrópole paulista?

Com a vinícola de Tatuapé estabelecida e produzindo um vinho que, embora não se comparasse ainda aos barris trazidos da Europa, já era considerado minimamente tragável para não usar palavras menos agradáveis e utilizado no dia a dia, as parreiras logo começaram a se espalhar por São Vicente. Seu cultivo ia crescendo na direção leste, até Mogi das Cruzes.

Além de contribuir para desbravar as terras e ocupá-las, o cultivo e produção do vinho — com ajuda da mão de obra dos índios, que já eram mestres na arte de fazer bebidas fermentadas com mais de 30 outras frutas nativas — logo se tornou uma das riquezas da região.

Não por acaso, em 1640, a Câmara Municipal de São Paulo passou uma ata padronizando a qualidade e os valores do vinho produzido na capitania, atestando que os esforços de Brás Cubas deram resultado!

Depois da inovadora tentativa de plantar parreiras viníferas no Brasil pelo Brás Cubas, em meados do século XVII, o segundo vinicultor do Brasil chegou aqui, por ocasião das chamadas invasões holandesas no norte da colônia.

Após uma empreitada arquitetônica que o deixou falido no Velho Continente, o conde Johan Maurits van Nassau-Siegen — ou, como era conhecido no Brasil, o Maurício de Nassau — resolveu aceitar a proposta da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais de administrar as conquistas da Holanda no Novo Mundo em troca de um salário digno de príncipe.

Decidido a fazer prosperar Recife (na época conhecido como Maurícia, chamado assim pelo próprio Johan Maurits), Nassau já desembarcou de mangas arregaçadas para fazer de Pernambuco a segunda capitania de sucesso do Brasil.

Em pouco tempo, o conde reestruturou os engenhos abandonados na luta pelas terras com a Coroa Portuguesa, travou alianças com os colonizadores lusitanos e os nativos, introduziu melhorias no cultivo e impulsionou as plantações de fumo e cana-de-açúcar.

Resumindo – a capitania de Recife prosperou e foi uma região muito moderna na época. Tolerância religiosa, tradição holandesa reformatória, e permitida por Nassau nos territórios sob seu comando, Pernambuco logo começou a atrair um bocado de gente, incluindo muitos imigrantes vindos dos Países Baixos, bem como luso-brasileiros de outras regiões. Um efeito, que sempre se repetia na história da humanidade, quando uma região prospera – sucesso e modernidade atrai gente!

E para suprir as necessidades da população crescente, foi preciso trazer a vitivinicultura à capitania. Como poderia então ser o “capital da época”, a região “top” –  sem servir a bebida nobre européia, pelo prestigio produzido no território nacional?

Dessa vez a empreitada deu certo na primeira tentativa, e as videiras introduzidas por Nassau na ilha de Itamaracá foram tão bem-sucedidas que ele pediu ao artista holandês trazido por ele às nossas terras, Frans Post, para acrescentar ao brasão da ilha três cachos de uvas viníferas.

No entanto, em pouquíssimo tempo, vários golpes de má sorte viriam a arrasar com as tão bem reputadas vinhas de Itamaracá. O primeiro deles aconteceu no início dos anos 1640, quando pragas, enchentes e a queda no preço do açúcar minaram a prosperidade de Recife.

Por fim, a coisa ficou mesmo feia em Itamaracá quando a notícia do ouro em Minas Gerais e Goiás chegou ao nordeste, provocando um êxodo em massa na direção das minas e deixando plantações por todo o país às moscas.

 

 

* Stefan Massinger nasceu na Áustria, sul de Viena, numa região de vinhos. Vive em Caraguatatuba, sendo embaixador do grupo Wine, o maior e-commerce de vinhos da América Latina, através da sua empresa Marevino. Também administra um curso on-line, tem um podcast e faz lives educativas mensais. Atua também como consultor independente de negócio.

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