*Stefan Massinger

 

Vinho é uma bebida da realeza. Desde o início da vinificação, como relato em colunas anteriores, sempre houve reis, imperadores e líderes, que gostavam de vinho e ajudaram no seu progresso. Não é que não existisse também um vinho “do povo” – ou melhor, feito pelo e para o povo. Mas muitas vezes o afeto de líderes influenciou o caminho da vinificação e a disseminação da bebida entrando assim na culinária, e no consumo do dia-a-dia.

Júlio César, um dos maiores estrategistas de guerra de todos os tempos, na sua época de aproximadamente 60 antes de Cristo, expande o Império Romano até a Bretanha. Nessa época, o imperador também define uma lei agrária e presenteia seus generais com terras na Gália, região recém-conquistada. Este hábito foi mais uma estratégia que um ato generoso. Tendo generais fieis, generosamente presenteados com terrenos, segurava a influência até os “fundos” do grande império romano em plena expansão na Europa. E para não perder certos hábitos romanos, as leis nestas terras novas, claro foram de Roma e não dos locais. A lei agrária tomou em consideração as diferentes condições climáticas das regiões integradas no império.  Destes presentes generosos para os seus generais surgiriam os vinhedos Borgonheses, em francês até hoje chamados “romanées”, como o Romanée-Conti, por exemplo. Eles representem uns dos mais antigos e mais renomadas vinícolas francesas da região de Borgonha. Vinhos dos “Romanées” custam facilmente 15.000 reais para cima por garrafa …

Entre outros líderes influenciando e desenvolvendo o cultivo do vinho, um dos mais relevantes foi Carlos Magno, na época medieval de 800 D.C.

Carlos Magno foi o principal nome da Idade Média. Ele ajudou a “organizar” o norte da Europa, todo fragmentado depois do fim do Império Romano. Entre suas realizações, promulgou leis agrárias, especialmente as ligadas ao vinho, com rígidas normas para a produção. Mais do que isso, ele pessoalmente mandou cultivar vinhas em locais específicos. Grande possuidor de terras, deu nome à vinhedos, por exemplo, Corton-Charlemagne, na Borgonha. “Charlemagne” e nada mais que uma criação francesa de “Charles (Carlos) Magne (Magno). Carlos Magno, como foi moda na época, era um homem com barba. Reza a lenda, que a vinícola Corton-Charlemagne se especializou em produzir vinhos brancos e claros, porque eles não deixavam manchas na barba dele. – Isso nos dá uma impressão de como o vinho era consumido pelo grande imperador. Provavelmente numa jarra/”Schoppen” em alemão (daí o brasileiro “chopp” para cerveja, alias …) e tomada com maior prazer em cheio, e assim escorregava ao lado da boca e manchava a barba e a roupa. – Vinho branco resolveu este dilema.

Pulando mais um pouco nossa linha de tempo, quero mencionar o “primeiro concurso internacional de vinhos” de que se tem notícia. Ele foi organizado pelo rei Filipe Augusto, da França, por volta de 1220. Na ocasião, ele queria saber qual era o melhor vinho do mundo e mandou seus mensageiros buscarem bebidas por todas as partes do globo. Os vinhos foram julgados por um padre inglês, que titulou eles simplesmente “exonerado” se ele não gostou ou “celebrado” se ele gostou. A prova, que elegeu o vinho de Chipre – provavelmente o Commandaria –, foi entitulado “Apostolo”. Esta “batalha do vinho” foi eternizada no célebre poema de Henry d’Andeli.

 

 

* Stefan Massinger nasceu na Áustria, sul de Viena, numa região de vinhos. Vive em Caraguatatuba, sendo embaixador do grupo Wine, o maior e-commerce de vinhos da América Latina, através da sua empresa Marevino. Também administra um curso on-line, tem um podcast e faz lives mensais sobre vinho. Atua também como consultor independente de negócios.

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